A conjugação sexual é a-gramatical

Para Nina e Ricardo
Para mim, para você, para ele, para ela e para todos os outros o feminino é o Outro sexo.
Essa condição não tem nenhuma razão religiosa, esotérica ou biológica de ser, deve-se apenas ao fato de que surge no uso e no abuso da linguagem (tem um sem o outro?) um lado que se opõe, que contraria a direção.
Eu digo que o feminino seria a direção oposta à do sentido, mas também digo mais que isso, que seria a própria reversão da direção considerando que a linguagem funciona de forma topológica, não tendo nem direito nem avesso, nem raso, nem fundo, nem eira, nem beira.
O feminino está na diz-junção da fala com a escrita, sendo o escrever o-posto do falar.
Para escrever você tem que escrever a primeira coisa que vier à cabeça senão você interrompe a conexão com o Outro.
Na fala – ao contrário - se você disser a primeira coisa que vem à cabeça você interrompe a conexão com o outro.
Assim, o que surge como falha entre fala e escrita é o descontínuo da conexão com o Outro Sexo, aquilo que foi chamado de castração sendo que, na verdade, nada ali foi castrado mas sim cortado, interrompido. Entretanto, como é no mundo da linguagem que isso acontece, a abertura do tecido significante produz um efeito de significação, que pode ser sentido como ”estou perdido no fim do mundo” ou “não-sei-se-(eu)-existo-mais”.
Winnicott chamou de “breakdown”. Jones de “afânise”. Um psicanalisante de “pânico”. Palavras são palavras e acaba que o vocabulário psicanalítico precisaria ser substituído a cada nova primavera psicanalítica. Infelizmente temos mais invernos longos do que primaveras, já que nós psicanalistas resistimos à psicanálise de todas as maneiras que se pode imaginar. Por estranho que pareça.
Voltemos ao feminino
O feminino (outra palavra que só existe porque nenhuma outra a desalojou) está na inversão da fala para a escrita e da escrita para a fala, movimento que avança em direção ao vazio para re-inscrever-se na ordem simbólica, sendo então puro desejo de se escrever sem nunca encontrar senão uma terra devastada. Esse vazio, tão frequentemente romantizado, é apenas um intervalo/batimento temporal, embora aos olhos do “eu” pareça o Deserto do Saara.
“Ninguém me disse, eu não sabia, não tinham me explicado que eu era uma mulher” diz uma psicanalisante descrevendo o momento em que a ordem do universo se partiu quando se descobriu uma mulher nesse mundo no dia em que foi vista na sua nudez pelo olhar de um homem no metrô. O traumático é descobrir o que o Outro já sabia mas você não. Mas “e ainda pensar que, se ninguém me disse é porque ninguém sabia que isso se pode saber já que estou sabendo agora? Onde estava o sujeito suposto saber naquele dia?”
E agora – vejam bem - a re-conversão da fala na escrita, do dizer d’uma análise para o texto saído das entranhas d’um analista obriga novamente a Psicanálise ao desejo de saber do in-continente do feminino. Desde Freud foi assim.
A histérica, mais comumente chamada de “mulher”, faz essa reversão por compulsão mecânica, necessidade de se livrar dos excessos de excitação acumuladas pela repressão- escrita-na-pele-chamada-imagem-de-corpo.
O analista sofre essa inversão porque é feito de ato, corte que relança a história a um começo que nunca termina.
Por fim, o mais feliz dos desiguais, aquele que escreve como Escritor repete essa subversão apenas por amor à sua própria vida.
Desigual é o destino de todo ser falante, mas não-todos do feminino algo saber-hão.
MT Lemos
Campinas, 19/01/2021



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